No radar de empresas estrangeiras, profissionais de TI deixam o Brasil

Cinco convites para processos seletivos, por semana, costumam chegar pelo LinkedIn para o engenheiro de software Lucas Albuquerque, de anos. São, em sua maioria, enviados por empresas europeias de Tecnologia da Informação TI, que, assim como as brasileiras, sofrem com a falta de mão de obra. Diante da baixa oferta de trabalhadores qualificados na área, países como Alemanha, Suécia e Polônia têm aberto suas portas para brasileiros, e as companhias, bancado passagens e moradia para a família dos trabalhadores nos primeiros meses após a mudança.

Vivendo com a mulher na Polônia há dois anos, Albuquerque já comprou apartamento, viu seu filho nascer em um hospital onde as enfermeiras não falavam inglês – nem ele polonês – e mudou de emprego. “Nunca tinha pensado na Polônia, mas a empresa me encontrou pela internet e aí descobri que, enquanto a Alemanha concentra mais startups, a Polônia tem empresas mais robustas, o que deu segurança para eu mudar.” 

Albuquerque já chegou a trabalhar ao lado de outros dois brasileiros em uma equipe de apenas dez profissionais. “Quando cheguei aqui, tinha como saber quem eram quase todos os brasileiros. Agora, não dá mais. O grupo no WhatsApp de brasileiros de TI em Cracóvia tem pessoas.”

Os altos índices de violência, a falta de serviços públicos de qualidade e a dificuldade para desenvolver tecnologias de ponta estão entre os fatores que têm levado os brasileiros de TI a deixar o País. Como consequência, está o aumento da distância entre o Brasil e os países mais avançados. 

Na Suécia, por exemplo, o número de vistos concedidos para brasileiros trabalharem na área passou de em para no acumulado deste ano. Do total dos novos vistos em , % eram para profissionais de TI. Hoje, esse número chega a %.

Um dos destinos mais procurados, a Alemanha deu . vistos de trabalho para brasileiros no ano passado – em foram . A embaixada alemã no Brasil não segmenta esse dado por área, mas calcula que, em , , mil brasileiros trabalhavam com ciência e tecnologia no país.

“Falta talento na área. E o talento brasileiro que vem para a Europa costuma ser mais sênior”, diz o português Pedro Oliveira, cofundador do Landing.jobs, um site que conecta empregadores da Europa e trabalhadores de tecnologia. Na plataforma, brasileiros são o segundo maior grupo de usuários, com % do total, atrás apenas dos portugueses, com %.

“Como esse é um momento de expansão do mercado, grande parte das empresas nunca para de contratar. As que têm estrutura para trazer pessoas de fora optam por esse caminho”, diz o engenheiro de software Felipe Ribeiro Barbosa, de anos.

Após sete anos na Suécia, Barbosa está agora nos Estados Unidos, trabalhando na Netflix. Na Suécia, ele chegou em e era o único brasileiro na companhia em que trabalhava. “Depois, em , durante a crise no Brasil, foi impressionante a chegada de brasileiros. A empresa contratou até uma recrutadora brasileira.” Em , quando Barbosa deixou Estocolmo, já havia brasileiros na empresa. 

Segundo pesquisa do Boston Consulting Group BCG, os EUA são o destino preferido dos brasileiros de TI. De profissionais ouvidos pela consultoria aqui, % afirmaram estar dispostos a se mudar para o país. Canadá, Portugal e Alemanha aparecem em seguida. 

Os países europeus, porém, acabam ganhando dos EUA por facilitarem a permanência de estrangeiros. É comum, por exemplo, que o cônjuge do profissional contratado também consiga visto de trabalho – o que dificilmente ocorre nos EUA.

Na Europa, a maioria dos países também não exige que o trabalhador tenha concluído o ensino superior. É o caso de Daniel Rodrigues da Costa Filho, de anos – deles como programador. Ele chegou a cursar Ciências da Computação, mas largou, o que não o prejudicou no processo de seleção. Apenas quando solicitou o visto no consulado alemão, precisou comprovar que tinha experiência na área.

O paulista trabalha em uma startup, mas já passou pelo N, um dos maiores bancos digitais da Europa. “Trocar de emprego é simples aqui. A procura por parte das empresas é grande e, com o Brexit, tem muita empresa vindo para Berlim.”